É preciso que um gordo mineiro estúpido me dê aquela fechada básica no trânsito para eu conseguir postar.
É preciso que o imbecil mal educado ainda persiga meu carro para tentar me dar lições de direção para eu ter um pouco de raiva inspiratória.
Que coisa. É preciso que a velhinha pequenina desaforada no banco do passageiro do gordo estúpido que me fechou tenha o disparate de acompanhar o filho na sua verborragia agressiva para que eu fique tremendo de indignação e venha pra casa postar.
É. Daí eu estacionei, saí do carro com a sacolinha de filmes* que ia devolver na mão e parei quando vi aquele carro com os dois personagens insólitos dentro, me aguardando, só para falar um monte de coisas que eu não escutei. Falaram, falaram, e eu fiquei olhando e tremendo, e não falei nada daquilo que devia ter dito.
É assim que somos. Devolvi os filmes. Comprei chocolate e shampoo. Esqueci de cumprimentar a balconista da drogaria, que já me conhece. E voltei pro carro bufando, torcendo para o carro mal-educado estar ali novamente, porque aí eu já tinha ensaiado tudo que deveria falar.
Deveria falar. E acho que eles deveriam ouvir, mas enfim, a gente sempre acha que está certo.
Claro que filho gordo e mãe velhinha não me esperaram para que eu pudesse pensar nos meus xingamentos certeiros.
E eu vim pra casa postar.
*
* Na sacolinha de filmes, havia O Lenhador. Nem sabia do que se tratava quando decidi que queria assistir, então foi bom ter os "olhos virgens". Porque, de repente, aquela história louca encenada por Kevin Bacon começou a se desenrolar na minha frente à medida em que eu começava a perceber que estava torcendo para o estuprador de menininhas se dar bem no final do filme.
Gosto de me deixar levar pelas obras, e geralmente preciso observá-las duas vezes se quiser fazer um comentário crítico. Sou a espectadora perfeita. Me envolvo até com filme de terror, e morro de medo de alguns deles.
O Lenhador não é uma história de terror, mas é quase isso, porque assusta, instiga e incomoda. Kevin Bacon é um criminoso em condicional, que trabalha em uma madeireira e tenta ser uma pessoa "normal" após 12 anos de prisão. Tenta ter uma vida normal, o que significa parar de molestar menininhas. Os primeiros meses de liberdade condicional do "woodsman" são o tempo do filme. Denso. Psicológico. Humano demais.
"O Lenhador" mostra um outro lado da vida; um lado obscuro que o espectador sente que está desvendando, como um psicólogo que torce para que seu paciente consiga se adaptar à sociedade. Então, nós, terapeutas-público, vamos identificando, ao longo do filme, signos e associações que constróem a vida e a mente dos personagens. Razões e acontecimentos que transformam uma personalidade ou se somatizam numa perversão qualquer. Sutis, muitas vezes sutis... muitas vezes mais ingênuos e, definitivamente, menos cruéis que nossos julgamentos.
Assistam, quando quiserem rever conceitos.
25.7.05
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1 comentários:
Rever conceitos eh o que mais tenho feito desde que cheguei aki. Vc deve saber sobre alguns deles a partir do momento que te contei algumas coisas (as quais chamo de segredos) que nem mesmo meu espelho sabe. Espero que vc se lembre...
Beijos...
PS: eh sempre bom rever conceitos, e as vezes, voltar atras e perceber o quanto estavamos errados. Essa eh uma boa forma de nos amadurecermos e nos tornarmos pessoas melhores...
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