18.8.05

Genes dominantes

Um rapaz bronzeado, barba loira, olhava, altivo, as duas amigas. Elas pularam na enorme piscina, fazendo a explosão de gotas brilhar sob o sol forte, ruidosamente. Uma gota respingou em sua boca, que ele lambeu lascivamente, imaginando como as duas seriam maravilhosas juntas em uma cama, morena à esquerda, ruiva à direita. Então mergulhou.

*

Ela era uma menina de classe média, média, de genes dominantes que fazem todo mundo ser mais ou menos igual em uma cidade. Cabelos castanhos, olhos castanhos, bonita na sua genética simples, ingênua em seus sonhos medianos que não conheciam a fundo a "high society". Queria apenas participar das festas deles, dos carros deles, da alegria deles.
E hoje estava, enfim, naquele recanto de luxo e natureza, a convite de uma nova amiga ruiva. Um clube privado, exclusivo às famílias tradicionais paulistas, e longe o suficiente da cidade para que seu acesso fosse ainda mais difícil.
A menina dos genes dominantes oscilava, sob o torpor causado pelo sol, entre o deslumbramento da situação e a vergonha de se saber não-pertencente àquele seleto grupo.
A convite da amiga, preferiu ficar dentro d´água o quanto possível, para não muito se expor. Então se exasperou: a amiga ruiva a havia deixado por uns instantes para pegar uma toalha e, neste intervalo ela viu, petrificada como diante de uma criatura marítima, um rapaz se aproximar sob a superfície.
Então ele surgiu, num movimento rápido de cabeça para tirar os cabelos loiros da testa, abrindo em seguida um sorriso malicioso que revelou belos dentes.
- É a primeira vez que você vem aqui, não é, garota?
Ela gaguejou. É...
- Hm... (meio-sorriso irônico). Percebi. Onde você mora?
A garota mordia os lábios e o olhava paralisada por uma mistura de receio e deslumbramento. Nunca havia conversado com rapazes tão atraentes.
- E sua amiga? Aposto que ela deve falar um pouco mais do que você. Foi ela quem te chamou aqui, não?
Finalmente uma pergunta razoável. Talvez conseguisse responder.
- Foi. Foi sim.
- Agora estão aceitando convidados sem a mínima seleção neste clube. Um absurdo. Sabe... quando meus avós fundaram o jóquei, somente quatro famílias tinham acesso.
Uma ruga de dúvida surgiu na testa da moça. Abriu a boca para tentar dizer qualquer coisa. Mas ele a antecipou:
- Vocês sujam as nossas piscinas.
E deu mais um daqueles sorrisos cheios de sarcasmo, como a esperar pela resposta da provocação.

*

Os olhos castanhos se perdiam na estrada, voltando para a vida real da capital, dentro do carro de Marcelo, sua criatura marítima. A alegre conversa que acontecia entre os outros passageiros não lhe chegava aos ouvidos.
A única coisa que conseguia pensar era no que devia ter dito àquele belo insolente que a humilhara. E ainda se mortificava por estar, agora, dentro do carro dele, à mercê de sua “gentileza”.
O que ele diria se visse sua casa? Iria descer no centro. Pegaria um bonde, depois. Estava decidido.


*

Vou tirar férias! Meet me in Ilha Grande! Depois continuo.

3 comentários:

Paulo disse...

Acima do gen,
existe o imaginário,
o Desejo,
o simbólico.
Gostei pra caralho.
Passa lá.
www.literaturacorporal.blogspot.com
Beijos.
Paulo.

Franchini disse...

Hmm... não deixaram minha família ser sócia da associação recreativa de sertãozinho. Hoje eu prendo os boizinhos que fumam maconha na rua. Poderia dar uns tapas e liberá-los, mas não...é tão divertidos ve-los chorando, rsrsrs...

POEMIA disse...

putz... o texto acabou?? Tava tão bom! Não tem a parte II?