Durou pouco tempo, mas o suficiente para ela ter chegado a pensar
Que ele era 'o cara'
Ficou de quatro de verdade
Na vida real e em cima da cama
Justamente quando já pensava que nunca mais iria se apaixonar.
Foi uma loucura nada a ver, fulminante, sem sentido
Mas aí acabou.
Três meses para terminar.
Mais três pra ela se conformar.
Três meses entrando diariamente no blog dele,
no fotolog dos amigos dele,
no Orkut dele,
no e-mail dela para ver se chegou alguma coisa dele.
(Romances pós-modernos.)
Três meses pra ela parar com essa palhaçada de sentir pontadinhas de ciúmes com as inúmeras mulheres virtuais com quem ele mantém contato.
Três meses de nojo daquelas mensagens para cantar mulheres na Internet Crtl + C + Crtl + V.
Mulher é um bicho burro mesmo: três meses para perber o quanto ele é idiota
E o quanto de telefone foi gasto em vão para ela se conformar com isso.
30.1.05
29.1.05
Sex, violence, melody and silence
Adoro o refrão "Have you ever been down? Sex and violence, melody and silence" daquela música do The Verve. Me faz refletir sobre estes quatro temas, em cima dos quais me debruço insistentemente e compulsivamente de vez em quando.
Hoje assisti ao consagrado, idolatrado, indicado, premiado, comentado por todo o mundo "Laranja Mecânica" (The Clockwork Orange, 1971). Desta vez, vou tentar resenhar menos e ensaiar mais, porque esse troço, como todos os outros feitos de Kubrick, me fez ficar encucada, sem saber se gostei ou não do filme. Além do mais, basta digitar "laranja mecânica" no Google para aparecer tanta coisa bem-escrita e tanta porcaria também, a respeito dessa obra.
Tenho refletido sobre a violência, e, na busca de entender todos os lados de uma situação, às vezes me ponho no lugar de vilões de filmes e vilões de verdade. Apesar de a minha aversão e repulsa natural a atos violentos, acho que, principalmente após assistir "Laranja Mecânica", sou capaz de perceber o prazer quase carnal de atitudes agressivas. É extremamente fácil sentir prazer em ser violento. Acho que a violência é humana, é carnal, infelizmente, e qualquer um está sujeito a romper as barreiras culturais e psicológicas que impedem práticas como as ilustradas no filme. Quem nunca se sentiu intimamente orgulhoso em vencer uma discussão agressivamente? E quantos homens de bom coração já não foram moleques que sentiram um enorme prazer em maltratar animais?
Isso eu registro porque é um novo ponto de vista. Nunca havia entendido os porquês da violência, da bestialidade, do estupro, dos sadismos: a mênção destes temas me chocava. Ainda me sensibilizo, ainda me impressiono, mas Laranja Mecânica consagrou minha nova visão sobre este assunto. É muito fácil espancar, machucar, matar, violentar, fisicamente e psicologicamente. Os limites entre fazer tudo isso ou não fazer são muito tênues. É carnalmente prazeroso se sentir superior, dominador, "dono" de outro. Oprimir, dominar outro ser. Hoje eu acho irônico quando ouço alguém dizer que tal ato foi "desumano", por exemplo. Muitas coisas da chamada "natureza humana" são desprezíveis.
Machismo e subversão
E "Laranja" explicita este lado da natureza humana. Mais uma vez, Beethoven ilustra cenas subversivas - talvez as mais - do cinema. (O compositor talvez nunca imaginasse essa sua vocação.)
Trilha, fotografia, edição, direção, roteiro, essa coisa toda brilhante já foi criticada e aplaudida, apesar de o filme não ter levado nenhum dos Oscars a que concorreu.
Mas Alex é um vilão abusado, cruel, machista, doente e incrivelmente sexy. Um filho da puta que também incomoda meu orgulho feminino e só pensa em fazer o "in and out" com vaginas disponíveis não-pensantes. Sou a favor de pena de morte para quem estupra.
Enfim, outra cilada fácil de cair até hoje, trinta anos depois do lançamento de "Laranja Mecânica", quando a televisão, os outdoors e as páginas da internet e de revista exaltam o sexo pelo sexo, pelas bucetas loiras, pelos bumbuns lisinhos e pelas barrigas saradas acéfalas. O sexo oferecido por IMAGENS de verdadeiras máquinas de sexo estilo "femme fatale" pelo prazer masculino, trinta anos após as mulheres comemorarem a pílula e o suposto "direito ao prazer feminino".
Uma pena perceber que o tempo passa e tanta coisa não muda, que reprimir e "aculturar" (essa palavra existe?) e civilizar os impulsos humanos pelos DIREITOS humanos é uma tarefa difícil. Mas se continuar tentando é a única saída, "Laranja Mecânica" devia voltar às telas uma vez mais, para que o recado clichê e verdadeiro de que "violência gera violência" não seja esquecido.
Hoje assisti ao consagrado, idolatrado, indicado, premiado, comentado por todo o mundo "Laranja Mecânica" (The Clockwork Orange, 1971). Desta vez, vou tentar resenhar menos e ensaiar mais, porque esse troço, como todos os outros feitos de Kubrick, me fez ficar encucada, sem saber se gostei ou não do filme. Além do mais, basta digitar "laranja mecânica" no Google para aparecer tanta coisa bem-escrita e tanta porcaria também, a respeito dessa obra.
Tenho refletido sobre a violência, e, na busca de entender todos os lados de uma situação, às vezes me ponho no lugar de vilões de filmes e vilões de verdade. Apesar de a minha aversão e repulsa natural a atos violentos, acho que, principalmente após assistir "Laranja Mecânica", sou capaz de perceber o prazer quase carnal de atitudes agressivas. É extremamente fácil sentir prazer em ser violento. Acho que a violência é humana, é carnal, infelizmente, e qualquer um está sujeito a romper as barreiras culturais e psicológicas que impedem práticas como as ilustradas no filme. Quem nunca se sentiu intimamente orgulhoso em vencer uma discussão agressivamente? E quantos homens de bom coração já não foram moleques que sentiram um enorme prazer em maltratar animais?
Isso eu registro porque é um novo ponto de vista. Nunca havia entendido os porquês da violência, da bestialidade, do estupro, dos sadismos: a mênção destes temas me chocava. Ainda me sensibilizo, ainda me impressiono, mas Laranja Mecânica consagrou minha nova visão sobre este assunto. É muito fácil espancar, machucar, matar, violentar, fisicamente e psicologicamente. Os limites entre fazer tudo isso ou não fazer são muito tênues. É carnalmente prazeroso se sentir superior, dominador, "dono" de outro. Oprimir, dominar outro ser. Hoje eu acho irônico quando ouço alguém dizer que tal ato foi "desumano", por exemplo. Muitas coisas da chamada "natureza humana" são desprezíveis.
Machismo e subversão
E "Laranja" explicita este lado da natureza humana. Mais uma vez, Beethoven ilustra cenas subversivas - talvez as mais - do cinema. (O compositor talvez nunca imaginasse essa sua vocação.)
Trilha, fotografia, edição, direção, roteiro, essa coisa toda brilhante já foi criticada e aplaudida, apesar de o filme não ter levado nenhum dos Oscars a que concorreu.
Mas Alex é um vilão abusado, cruel, machista, doente e incrivelmente sexy. Um filho da puta que também incomoda meu orgulho feminino e só pensa em fazer o "in and out" com vaginas disponíveis não-pensantes. Sou a favor de pena de morte para quem estupra.
Enfim, outra cilada fácil de cair até hoje, trinta anos depois do lançamento de "Laranja Mecânica", quando a televisão, os outdoors e as páginas da internet e de revista exaltam o sexo pelo sexo, pelas bucetas loiras, pelos bumbuns lisinhos e pelas barrigas saradas acéfalas. O sexo oferecido por IMAGENS de verdadeiras máquinas de sexo estilo "femme fatale" pelo prazer masculino, trinta anos após as mulheres comemorarem a pílula e o suposto "direito ao prazer feminino".
Uma pena perceber que o tempo passa e tanta coisa não muda, que reprimir e "aculturar" (essa palavra existe?) e civilizar os impulsos humanos pelos DIREITOS humanos é uma tarefa difícil. Mas se continuar tentando é a única saída, "Laranja Mecânica" devia voltar às telas uma vez mais, para que o recado clichê e verdadeiro de que "violência gera violência" não seja esquecido.
5.1.05
"Elephant" de ano novo
A primeira ação de ano novo que me encheu os olhos e me agitou por dentro (fora os poucos fogos que consegui ver através da fumaça em Copacabana e a entrada do ano ao lado de uma pessoa so fuckin´special) foi assistir a"Elefante".
Há muitos meses eu ensaiei alugar o filme, mas aqui em casa eu tenho fama de quem "escolhe filmes chatos e esquisitos". Ontem à noite, enquanto meu pai dormitava, eu quase babei em frente à tela.
"Elephant" é um subproduto de "Tiros em Columbine", de Michael Moore. O título do filme possui explicações controversas - uma delas é a de que vem de uma frase do escritor Bernard MacLaverty, que diz que esses problemas com jovens são como "ter um elefante na sala de jantar e fingir que ele não existe".
Gus Van Sant fez poesia de uma tragédia comum - mas nem por isso menos trágica - em "Elefante" (2003). A trilha de Beethoven, que poderia ser somente uma escolha clássica e barata, se transformou em um elemento cênico fundamental, construindo sentido e muita emoção.
O diretor filmou, de forma natural, simples, tocante, a teia de relações, sentimentos, crueldade - sim, porque todos somos cruéis dos 13 aos 19 anos, com ou sem armas - entre os adolescentes. Faz uma crítica feroz e irônica à cultura do consumismo, da futilidade, das coisas descartáveis, que valoriza modas, corpos e atitudes enquanto oprime violentamente o que não se encaixa neste código. E bulímicas, loiras, casais, atletas, feios, solitários, populares tentam manter um mínimo de auto-estima diante deste quadro opressor.
Gus Van Sant explora estes caminhos com as simples e geniais tomadas que, aparentemente, não levam a nada. A câmera segue as personagens como uma fase de "Doom", que provavelmente é como se sentem as gerações criadas por jogos eletrônicos, armas de brinquedo e - porque não? - shoppings.
E o diretor brinca também com o tempo de cada um, parecendo sugerir que nunca se sabe o que ficou para trás das outras pessoas, portanto: como julgar?
Um milhão de conceitos que surgem na sociedade ocidental pós-moderna são tratados deliciosamente nos 80 minutos de "Elephant". Maravilhoso e reflexivo, exige do público o franzir de testa, a concentração e um bocado de atenção, pois é ele quem dá a sentença final do crime.
(Mais informações precisas, procurar na Internet, que eu não estou com saco de fazer uma resenha quadradinha como me foi ensinado na faculdade de jornalismo).
Há muitos meses eu ensaiei alugar o filme, mas aqui em casa eu tenho fama de quem "escolhe filmes chatos e esquisitos". Ontem à noite, enquanto meu pai dormitava, eu quase babei em frente à tela.
"Elephant" é um subproduto de "Tiros em Columbine", de Michael Moore. O título do filme possui explicações controversas - uma delas é a de que vem de uma frase do escritor Bernard MacLaverty, que diz que esses problemas com jovens são como "ter um elefante na sala de jantar e fingir que ele não existe".
Gus Van Sant fez poesia de uma tragédia comum - mas nem por isso menos trágica - em "Elefante" (2003). A trilha de Beethoven, que poderia ser somente uma escolha clássica e barata, se transformou em um elemento cênico fundamental, construindo sentido e muita emoção.
O diretor filmou, de forma natural, simples, tocante, a teia de relações, sentimentos, crueldade - sim, porque todos somos cruéis dos 13 aos 19 anos, com ou sem armas - entre os adolescentes. Faz uma crítica feroz e irônica à cultura do consumismo, da futilidade, das coisas descartáveis, que valoriza modas, corpos e atitudes enquanto oprime violentamente o que não se encaixa neste código. E bulímicas, loiras, casais, atletas, feios, solitários, populares tentam manter um mínimo de auto-estima diante deste quadro opressor.
Gus Van Sant explora estes caminhos com as simples e geniais tomadas que, aparentemente, não levam a nada. A câmera segue as personagens como uma fase de "Doom", que provavelmente é como se sentem as gerações criadas por jogos eletrônicos, armas de brinquedo e - porque não? - shoppings.
E o diretor brinca também com o tempo de cada um, parecendo sugerir que nunca se sabe o que ficou para trás das outras pessoas, portanto: como julgar?
Um milhão de conceitos que surgem na sociedade ocidental pós-moderna são tratados deliciosamente nos 80 minutos de "Elephant". Maravilhoso e reflexivo, exige do público o franzir de testa, a concentração e um bocado de atenção, pois é ele quem dá a sentença final do crime.
(Mais informações precisas, procurar na Internet, que eu não estou com saco de fazer uma resenha quadradinha como me foi ensinado na faculdade de jornalismo).
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