A mais de mil quilômetros de distância, duas menininhas. Conversando à toa na rua. Apareceu um grupo de cães vadios, daqueles amarelos que vivem abanando o rabo.
A menina 1 fez festa em todos os cães.
A menina 2:
- Que nojo. Esses cachorros têm doenças e pulgas. (repetindo a frase de sua mãe).
E a 1 replicou:
- Se eu posso dar carinho pros (ela sempre emendava palavras – pros) meus cachorros, porque estes não merecem?
Quinze anos depois, a menina 2 comprou um pão de queijo na faculdade e deu na boca de uma cadela faminta que tinha orelhas machucadas. E olhava sorrindo para todos os cães vadios. E nem se lembrava de que essa lição era antiga.
*
Hoje é aniversário da menina-anjo. Por isso preciso escrever antes de meia-noite.
Ela era uma ariana impulsiva, que falava alto, brigava e pedia desculpas com a mesma sinceridade. Chorava e mandava cartas e inventava festas, teatros e brincadeiras.
Há anos não me lembrava de tantos detalhes. Mas o fato é que especialmente hoje, caiu uma lágrima pelo seu aniversário. Por causa dos cães, que ela tratava todos da mesma maneira, sendo sujos, vira-latas ou poodles de madame. E porque ela sabia, tão menina, pedir perdão aos amigos mais do que aos inimigos. “Tô ligando pra fazer as pazes”. Eu sinto falta do que ela seria hoje – teria 24, 25 anos e estaria se formando em alguma coisa como psicologia, economia, medicina ou sei lá o quê. Já teria tido um ou dois namorados ou talvez sofresse por ser gordinha. Acho que ela iria detestar dirigir e não sei se ainda pararia para brincar com cães na rua. Nem sei se seríamos amigas.
31.3.05
21.3.05
Máscara de pepino
Da cama desarrumada pro computador
Do computador com dor nas costas pra cama
Da cama pra cozinha - coca light, brigadeiro de panela
Da cozinha pro banheiro aplicar uma máscara de pepino na cara
(20 minutos de rosto esticado, segurando a duras penas o riso do cachorro que corre de lá pra cá)
Do banheiro pra Clarisse Lispector
Overdose de Clarisse Lispector este domingo
Talvez por isso esteja se sentindo tanto como um bicho pequeno
Um inseto, um galho seco, uma menina de joelhos cinzentos
Da Clarisse pro computador de novo
Pra tentar expressar qualquer coisa
Ouvir dez vezes a mesma música que diz "don´t be scared... don´t be scared" a 100 times.
Pra tentar não se sentir assim, como um domingo cinzento-culpado-à toa-ansioso-que rói as unhas e fica pensando em mar.
Do computador com dor nas costas pra cama
Da cama pra cozinha - coca light, brigadeiro de panela
Da cozinha pro banheiro aplicar uma máscara de pepino na cara
(20 minutos de rosto esticado, segurando a duras penas o riso do cachorro que corre de lá pra cá)
Do banheiro pra Clarisse Lispector
Overdose de Clarisse Lispector este domingo
Talvez por isso esteja se sentindo tanto como um bicho pequeno
Um inseto, um galho seco, uma menina de joelhos cinzentos
Da Clarisse pro computador de novo
Pra tentar expressar qualquer coisa
Ouvir dez vezes a mesma música que diz "don´t be scared... don´t be scared" a 100 times.
Pra tentar não se sentir assim, como um domingo cinzento-culpado-à toa-ansioso-que rói as unhas e fica pensando em mar.
20.3.05
Joana e Glória
"Estrelas, estrelas, rezo.
A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis.
Por que não vem a chuva dentro de mim, eu quero ser estrela.
Purificai-me um pouco e terei a massa desses seres que se guardam atrás da chuva.
Neste momento, minha inspiração dói em todo meu corpo. Mais um instante e ela precisará ser mais do que uma inspiração.
E em vez dessa felicidade asfixiante, como um excesso de ar, sentirei nítida a impotência de ter mais do que uma inspiração, de ultrapassá-la, de possuir a própria coisa - e ser realmente uma estrela."
(Clarisse Lispector)
A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis.
Por que não vem a chuva dentro de mim, eu quero ser estrela.
Purificai-me um pouco e terei a massa desses seres que se guardam atrás da chuva.
Neste momento, minha inspiração dói em todo meu corpo. Mais um instante e ela precisará ser mais do que uma inspiração.
E em vez dessa felicidade asfixiante, como um excesso de ar, sentirei nítida a impotência de ter mais do que uma inspiração, de ultrapassá-la, de possuir a própria coisa - e ser realmente uma estrela."
(Clarisse Lispector)
2.3.05
Se
Advinhe. Assisti a "Efeito Borboleta" e discordo de tudo que andam dizendo por aí. O Kelso (That 7O´s Show) NÃO é um babaca e fica ótimo em papéis sérios. O filme NÃO é uma versão pior de Donnie Darko, apesar de suas temáticas semelhantes. O roteiro teve uns furos sim, em relação a vida real, mas é ridículo pensar em termos de "realismo" diante de uma história dessas. E voltar no tempo através de um diário pode até ser clichê, mas há tantos clichês piores. Ah. E a música do Oasis que acompanha as cenas finais é linda!!!!!!!
Na verdade, noite passada não consegui dormir. Fiquei pensando nos SEs, com a música do Oasis na cabeça sem parar.
Se não tivesse insistido para me mudar daqui há doze anos atrás.
Se eu não tivesse ido ao cinema há uns quatro anos com um povo desconhecido e sentido calores por um menino que também mal conhecia.
Se não tivesse jogado fora aquela ficha de inscrição no colégio para passar dois anos no exterior.
Se não terminasse com meu primeiro namorado.
Se não tivesse tomado alguns drinques a mais em algumas ocasiões.
Se a pílula do dia seguinte não existisse.
Se ainda estivesse no ballet ou no teatro ou no jazz ou na natação. (quilos a menos?)
Se tivesse estudado no meu primeiro vestibular (publicidade, na UFMG, putz)
Ok, meu passado é um marasmo fácil de ser consertado perto de fatos como pedofilia, brincadeiras infantis com dinamites, suicídios e traumas imensos que devem fritar a cabeça de uma pessoa.
Mas, para mim, cinema serve é para isso mesmo: fazer a gente sair do nosso marasmo. E a graça de "Efeito Borboleta" é justamente essa: fritar a sua cabeça até você conseguir dormir.
Na verdade, noite passada não consegui dormir. Fiquei pensando nos SEs, com a música do Oasis na cabeça sem parar.
Se não tivesse insistido para me mudar daqui há doze anos atrás.
Se eu não tivesse ido ao cinema há uns quatro anos com um povo desconhecido e sentido calores por um menino que também mal conhecia.
Se não tivesse jogado fora aquela ficha de inscrição no colégio para passar dois anos no exterior.
Se não terminasse com meu primeiro namorado.
Se não tivesse tomado alguns drinques a mais em algumas ocasiões.
Se a pílula do dia seguinte não existisse.
Se ainda estivesse no ballet ou no teatro ou no jazz ou na natação. (quilos a menos?)
Se tivesse estudado no meu primeiro vestibular (publicidade, na UFMG, putz)
Ok, meu passado é um marasmo fácil de ser consertado perto de fatos como pedofilia, brincadeiras infantis com dinamites, suicídios e traumas imensos que devem fritar a cabeça de uma pessoa.
Mas, para mim, cinema serve é para isso mesmo: fazer a gente sair do nosso marasmo. E a graça de "Efeito Borboleta" é justamente essa: fritar a sua cabeça até você conseguir dormir.
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