25.4.05

Te extraño (Transcrição)

"Querida,
Não sei porquê - talvez por considerar o presente uma espécie de purgatório e o futuro, um sonho morno tão distante e difícil de compartilhar - mas tenho tido uma grande nostalgia. Do autêntico, do livre, do exagerado e bruto.
E hoje me exasperei ao encontrá-la na rua, me demorando a realizar que aquela era você, tanto tempo depois. Tanto tempo depois de você ter se tornado mãe, depois de ter vivido momentos que eu jamais conhecerei.
O rosto, antes arredondado e com um sorriso apertado, hoje é cercado por cabelos mais curtos e possui um ar de placidez - característica essa que nunca fez parte da sua personalidade.
Então, minha cara, foi um choque encontrá-la repetinamente naquela esquina. E me lembrei de pedaços de cartas que li e reli tantas vezes. E da carta que cobri de recomendações e papel colorido quando você foi embora - esta foi a última carta, e eu nem cheguei a enviá-la.
E veio também à minha cabeça, num flash, o meu desapontamento quando você, sempre tão precoce, me tratou como uma criança da última vez em que nos falamos por telefone.
Eu sonhei que você esperava um filho um dia antes de saber que você de fato estava grávida, tão longe. E pensei em você quase que obsessivamente nestes anos todos.
Agora é um êxtase. Tenho tanto e nada para lhe dizer.
A minha vontade é de abraçá-la, beijá-la, no rosto, nas sobrancelhas, nos lábios, entre lágrimas, e afagar seus cabelos de cheiro ainda doce - uma penugem negra.
Tentei acalmar meu inconformismo estes anos todos pensando o pior sobre você. Mas hoje, me lembro tão bem do sol que fazia enquanto tomávamos um sorvete muito rosa e muito doce em uma rua próxima à sua casa. E de quando pulamos nuas naquela piscina, rindo muito e levantando água.
Você ainda tem aquela cicatriz na perna?"

18.4.05

Homem-Aranha

Hoje parei no sinal - vidros fechados, sol da tarde jogando uma luz legal no meu cabelo
Parei no sinal - e da rua perpendicular veio o Homem-Aranha
O Homem-Aranha na carga de uma velha picape branca
O Homem-Aranha se preparando para lançar uma teia, o uniforme fashion de design mais inovador dentre todos os super-heróis
As lentes prateadas da máscara brilhavam sob o sol que também lhes lançava uma luz legal.
Eu dei uma risada interna e segui, por alguns instantes, o Homem-Aranha congelado em sua pose de lançar teia.
E fiquei pensando que eu podia ser a Mary Jane Watson e beijar o Homem-Aranha de cabeça pra baixo.
Além do pensamento bobo, parafraseando a tia do Homem-Aranha, de que o mundo deveria ter mais heróis.
*
Os viciados em HQ´s devem odiar gente como eu.

11.4.05

Ensaio de auto-ajuda urgente para escrever sobre cabras

Metalinguagem eu aprendi o que é devia ser sétima ou oitava série. E a tal da palavra que muita gente usa para enfeitar alguns textos me persegue bastante, até hoje. O legal do "meta" é que ele é como uma terapia, um divã de análise ou uma palavra de auto-ajuda. Ela tem o mesmo efeito do que essas coisas todas que fazem um neurótico finalmente tomar consciência de que é um neurótico e etc.
Deve ser por isso que tanta gente faz filmes que falem sobre cinema, como Janela Indiscreta e tantos outros, compõe músicas que fale de música ou escreve um texto que fale sobre o próprio texto.
E por mais que ninguém se interesse por isso, essa é a minha justificativa para posts como este, cujo "lead" começa agora: definitivamente, ainda não aprendi a me desvencilhar de mim mesma para escrever. Não consigo escrever sobre coisas que não me toquem de alguma forma, ou que não tenham um "tempero" de mim mesma - um lugar, um sonho, uma coisa escondida qualquer. Tudo que me inspira é de um egoísmo auto-biográfico absurdo, acabei de perceber.
Eu queria ser como Rubem Fonseca, que me surpreende com personagens dos mais variados: fortões de academia, prostitutas do Rio, gordas donas de pensões sujas, madames ninfomaníacas, videntes, velhos que têm filhas lésbicas, velhos que têm filhos doutores, matadores de aluguel, gordos políticos que cheiram cocaína, mulheres que fazem loucuras por um homem e até um cara que conseguia ler o futuro nos desenhos formados pelos seus próprios cocôs. O melhor de todos foi um tipo NORMAL, magro, sem graça, cuidador de um casal de velhinhos que se apaixonou por uma boneca inflável e, por isso, parou de comer cabras e outros bichos. Imagine se Rubem Fonseca tivesse de tudo isso um pouco, que loucura. Invejo-o por saber desvencilhar-se de si mesmo. É um cara altruísta e doador.