25.7.05

O gordo e o lenhador

É preciso que um gordo mineiro estúpido me dê aquela fechada básica no trânsito para eu conseguir postar.
É preciso que o imbecil mal educado ainda persiga meu carro para tentar me dar lições de direção para eu ter um pouco de raiva inspiratória.
Que coisa. É preciso que a velhinha pequenina desaforada no banco do passageiro do gordo estúpido que me fechou tenha o disparate de acompanhar o filho na sua verborragia agressiva para que eu fique tremendo de indignação e venha pra casa postar.
É. Daí eu estacionei, saí do carro com a sacolinha de filmes* que ia devolver na mão e parei quando vi aquele carro com os dois personagens insólitos dentro, me aguardando, só para falar um monte de coisas que eu não escutei. Falaram, falaram, e eu fiquei olhando e tremendo, e não falei nada daquilo que devia ter dito.
É assim que somos. Devolvi os filmes. Comprei chocolate e shampoo. Esqueci de cumprimentar a balconista da drogaria, que já me conhece. E voltei pro carro bufando, torcendo para o carro mal-educado estar ali novamente, porque aí eu já tinha ensaiado tudo que deveria falar.
Deveria falar. E acho que eles deveriam ouvir, mas enfim, a gente sempre acha que está certo.
Claro que filho gordo e mãe velhinha não me esperaram para que eu pudesse pensar nos meus xingamentos certeiros.
E eu vim pra casa postar.

*

* Na sacolinha de filmes, havia O Lenhador. Nem sabia do que se tratava quando decidi que queria assistir, então foi bom ter os "olhos virgens". Porque, de repente, aquela história louca encenada por Kevin Bacon começou a se desenrolar na minha frente à medida em que eu começava a perceber que estava torcendo para o estuprador de menininhas se dar bem no final do filme.
Gosto de me deixar levar pelas obras, e geralmente preciso observá-las duas vezes se quiser fazer um comentário crítico. Sou a espectadora perfeita. Me envolvo até com filme de terror, e morro de medo de alguns deles.
O Lenhador não é uma história de terror, mas é quase isso, porque assusta, instiga e incomoda. Kevin Bacon é um criminoso em condicional, que trabalha em uma madeireira e tenta ser uma pessoa "normal" após 12 anos de prisão. Tenta ter uma vida normal, o que significa parar de molestar menininhas. Os primeiros meses de liberdade condicional do "woodsman" são o tempo do filme. Denso. Psicológico. Humano demais.
"O Lenhador" mostra um outro lado da vida; um lado obscuro que o espectador sente que está desvendando, como um psicólogo que torce para que seu paciente consiga se adaptar à sociedade. Então, nós, terapeutas-público, vamos identificando, ao longo do filme, signos e associações que constróem a vida e a mente dos personagens. Razões e acontecimentos que transformam uma personalidade ou se somatizam numa perversão qualquer. Sutis, muitas vezes sutis... muitas vezes mais ingênuos e, definitivamente, menos cruéis que nossos julgamentos.
Assistam, quando quiserem rever conceitos.

19.7.05

Uma suíte

Incrível como um telefone e um café podem tirar um molusco de uma supernova.
Hoje foi uma segunda-feira das melhores possíveis. Consegui iniciar meu projeto de reeducação alimentar e não devorei o típico pão ciabatta com aquelas frutinhas vermelhas que eu adoro do Café com Letras. O bom é que não fiquei olhando para o cardápio obstinadamente, porque bati papos ótimos e nostálgicos que me distraíram e tudo... bom ver pessoas que fazem caretas e que não se importam se estou com frio ou não.
Fiquei mais leve também, porque afinal, um mercado de trabalho tão ridiculamente pequeno como é o de Belo Horizonte não é exatamente trágico como uma supernova, e talvez minhas férias forçadas tenham que acabar (bom ou ruim?).
Bruna Surfistinha anda demorando pra postar. Acho que vou começar mais um livro.

16.7.05

Uma razão

Ao contrário de algumas pessoinhas espalhafatosas, eu gosto do humor contido e nonsense dos ingleses. É uma coisa estarrecedora, muitas vezes, e você acaba rindo cinicamente depois de franzir as sobrancelhas e fazer uma careta de "o quê???".
E é por isso que vale a pena ler até o último volume do Guia do Mochileiro das Galáxias, mais um best-seller que adotei como livro de cabeceira (provisoriamente, porque a leitura é tão rápida e agradável que não pára em sua mesa de cabeceira por mais alguns dias):

"- Estamos tão ferrados quanto um molusco numa supernova - disse Ford Prefect, sem perder o ritmo. - A...
- O que os moluscos têm a ver com as supernovas? - perguntou Arthur Dent.
- Eles não têm - disse Ford, sem se alterar - a menor chance dentro delas. (...) Uma supernova - continuou Ford o mais rápido e claramente possível - é uma estrela que explode com cerca da metade da velocidade da luz e queima com o brilho de bilhões de sóis antes de entrar em colapso e virar uma estrela de nêutrons superdensa. É uma estrela que engole outras estrelas, sacou? Nada tem a menor chance diante de uma supernova.
- Entendo - respondeu Arthur.
- A...
- Mas, então, por que um molusco em particular?
- E por que NÃO um molusco? Não faz diferença!"

*
É. Às vezes a gente se sente como um molusco numa supernova.

10.7.05

Ninfeta de 19 anos que adora sexo

Prefácio: (Nunca tive resposta para enquetes que me perguntavam quem era meu ídolo. Sempre achei tolinhas as respostas "Jesus", "Deus", "John Lennon", etc. Detesto idolatrias e costumo, às vezes petulantemente, olhar para as pessoas de igual para igual. Tenho uma grande dificuldade de chamar as pessoas mais velhas de "senhor" e "senhora". Odeio babação de ovo de quem quer que seja, pois sou muito crítica para aceitar alguém como supremo demais em alguma coisa.)

Bom, algumas coisas mudam com o tempo. Prova disto é a minha atual babação de ovo no meu convite de formatura para algumas pessoas e minha nova grande admiração por Bruna Surfistinha.
Bruna Surfistinha, segundo ela, é uma "ninfeta de 19 anos que adora sexo". Uma garota de programa que tem feito o maior sucesso em vários veículos grandes de comunicação por causa de seu blog, onde relata suas experiências, e da "pesquisa" que vem fazendo. A pesquisa consiste em anotar, após cada programa, o estilo (namoradinho, selvagem, etc.), o perfil do cliente (taradinho, playboy, pra casar, quarentão, tímido, etc.) e alguns detalhes, de forma quantitativa E qualitativa de coisas sexuais. Gente, a menina é o máximo.
Segundo o que eu pude perceber, o nome dela não é Bruna Surfistinha, e um dia ela vai "largar esta vida". Mesmo vivendo em São Paulo, a garota mantém um visual bronzeado (com loções bronzeadoras, acho) para fazer juz à propaganda. Aliás, pelo que eu saiba, é a primeira "prima" que tem um site personalizado, numa ótima jogada de marketing.
Personagem ou não, Bruna Surfistinha consta como uma ruptura no meu padrão de "babação de ovo", por ter me mostrado uma outra versão das coisas e deste mundinho. Ela às vezes fala, entre relatos de uma ou outra trepada, com caras legais, carentes ou violentos, fala do quanto se ressente por sua relação com seu pai, que a despreza desde antes de ela virar puta. Fala muito dele, pobre velho, que hoje tem notícias da filha através de programas televisivos e de revistas tipo VIP, provavelmente. O velho que nem notava "aquelas coisas miúdas" que perambulavam por sua casa. (Velho para quem, hoje, talvez, viriam muito a calhar os conselhos de sua filha para seu casamento arruinado).
Bruna Surfistinha tem muito a nos ensinar sobre sexo (a própria Playboy já garantiu a ela o título de "fonte" destes assuntos), principalmente aos homens, bichinhos carentes e controversos que têm a maior dificuldade de conversar e esclarecer as coisas. Ela também nos ensina muito sobre relações pessoais, auto-confiança, criatividade. Ela é foda, porque decidiu "fazer bem e fazer diferente" mesmo em uma área de trabalho tão saturada.
Após ler todos os cantos possíveis de seu blog, e de tomar conhecimento disso tudo, me surpreendi com os comments deixados por leitores. Havia coisas do tipo "FALA O PREÇO DO PROGRAMA AÍ, VAGABUNDA", "VOCÊ DEVE TER AIDS, NOJENTA", "E AÍ VADIA FILHA DA PUTA GOZADA", "VOCÊ GOSTA DE TRANSAR COM MULHERES?", e o pior, garotas revoltadas (possivelmente infelizes sexualmente, para não dizer mal-comidas) apontando celulite nas belas fotos caseiras que Bruna divulgou. Entre estes poucos desaforos já esperados, encontrei DEZENAS de elogios de mulheres e homens, ex-clientes, futuros clientes apaixonados e leitores anônimos que se envolveram com suas histórias picantes e delicadas. As pessoas a elogiavam por sua coragem, autenticidade, feminismo, ruptura, sinceridade, por seu texto bem construído e inteligente. Alguns a aconselharam a largar esta vida, outros se mostraram preocupados com as relações familiares de Bruna, esposas pediam conselhos para incrementar seus casamentos e um leitor opinou que ela deveria ser jornalista em vez de seguir seu declarado sonho de fazer administração. Um post imenso criticava os comentários grosseiros e instruía Bruna a não se importar com as opiniões dos outros.
O autor anônimo deste post está certo... afinal, diante de uma média de seis relações sexuais com pessoas diferentes por dia e de tamanha experiência, quem somos nós, míseros filhos de classe-média para julgar? Nós, que tivemos alguns namorados (as?) durante estes últimos anos razoavelmente equilibrados e razoavelmente monótonos e planejados - nós, que vivemos metendo os pés pelas mãos nas relações pessoais? Qual a sua autoridade para julgar Bruna Surfistinha? 130 pessoas a menos na sua lista de "pessoas com quem transei"?

O endereço é www.brunasurfistinha.com. Enjoy.

3.7.05

run, baby, run

Tenho vontade de pular pra dentro de uns livros e não sair mais de lá. (Creio que isso se chama alienação. ou preguiça de ler jornal. ou falta do que fazer.)