Precisava tirar férias. Férias das férias. Já estava sem trabalhar havia dois meses e aquilo a exasperava. Acordava ao meio-dia e passava seis horas seguidas na internet. Leu todos os livros que ainda não tinha lido e resolveu que viajar seria bom.
Descobriu um lugarejo numa ilha, incrustado no meio das pedras e da areia. Construído com madeira, longe de tudo, o dono era pescador e cobrou baratinho. Era lá mesmo.
Maria botou meia dúzia de roupas leves na mala, pegou um barco que deu a maior volta para chegar lá e desembarcou no local.
Não esperava tanta rusticidade - olhou em volta e havia, além da pousada, uma igreja evangélica caindo aos pedaços e um pequeno grupo de casebres de pescadores. A urbana Maria ficou cheia de areia no tênis e no jeans que vestia ao descer do barco e caminhar até seu quarto, pois não havia asfalto. Perfeito.
O sol apareceu por trás das nuvens e surpreendeu o tedioso clima "setembrino", que Maria esperava chegar todos os anos.
Despiu-se das preocupações, da internet viciante, do celular e das entrevistas de emprego e deitou na areia.
Bronzeou os braços e o colo numa canoa. Remou pela primeira vez na vida e mergulhou perto de paredes de corais e em si mesma por um tempo.
Normalmente, odeia vento. Mas permitiu-se gostar daquele vento, daquele pedaço do mundo onde era ainda melhor ter os cabelos despenteados.
Caminhou na mata que se estendia infinitamente atrás das casas de pescadores, revelando uma sequência interminável de outras praias.
Ficou em silêncio por dias, um silêncio confortável que era facilmente preenchido por ruídos que não incomodavam. Pássaros, barcos, risadas de pescadores, água batendo em pedra.
Catou uma concha alaranjada, bonita, que o mar jogou aos seus pés enquanto andava pela orla num fim de tarde. Pensou em alguém que mereceria aquela concha. Pensou que seria romântico dá-la a alguém. "Ninguém", decidiu-se, e guardou na mochila.
Em sua última noite no paraíso, Maria jantou cedo a comida feita pela esposa do pescador, que consistia em peixe (inteiro, com olhos entumescidos e espinha), arroz, salada e no melhor feijão que havia provado na vida.
À noite, os pescadores usavam um gerador que iluminava apenas as casas e o mar ficava negro, revelando sua imponente presença através dos barulhos e de pequenos reflexos que a tímida lua setembrina doava, às vezes.
Um grupo de jovens pescadores passou enquanto a solitária Maria sentava num degrau, após o jantar, e bebia alguma coisa de coco. Carregavam redes e iam dormir. Maria pensou que talvez nunca tivesse conseguido dormir tão cedo, rindo intimamente, e olhou de soslaio para um dos pescadores que a havia praticamente comido com os olhos mais cedo, quando ela ainda estava de biquíni. A moça achou graça.
Três segundos depois, já estava imersa em seus pensamentos novamente, quando notou uma segunda presença na pousada. A alguns metros, um rapaz, quieto e louro, comia sem fazer barulho. A setembrina Maria gostava de observar, e de gente que sabia comer em silêncio. Então veio o dono da pousada e começou a gesticular e apontar para o cardápio, tentando comunicar-se com o tímido hóspede. O rapaz sorriu e gesticulou ainda uma outra coisa que Maria não entendeu. "Deve ser estrangeiro", pensou, divertida, "e está dando trabalho para o pescador".
Resolveu ir até lá, sem saber muito o que ia fazer. Por fim, perguntou ao rapaz (talvez para rir um pouco mais ou fingir que não havia notado que ele era estrangeiro), em português: "Você também vai embora de barco amanhã?", para logo em seguida se arrepender. Lembrou que ele ainda estava comendo e poderia se sentir invadido por aquela nativa inconveniente.
Ele então sorriu e depositou o garfo na mesa, finalizando a refeição: "aah.. english?"
Começaram a conversar. O pescador, como de hábito, desligou cedo o gerador e disse que ia fechar também a cozinha. O rapaz era tão urbanóide quanto Maria e os dois, únicos habitantes acordados da ilha, não tinham um pingo de sono àquela hora. Resolveram sentar um pouco mais perto do mar, carregando copos.
Maria notou que o rapaz usava meias, mesmo na areia. "Frio nos pés?", riu consigo mesma, mas não disse nada.
Sentou-se abraçando as pernas, ao lado do rapaz, que esparramou-se na orla, e ficaram falando de mil coisas. Ele morava a cinco horas de fuso horário de distância. Ela, a umas dez horas de carro daquele lugar. Eram estranhos, mas - talvez porque sabiam que jamais se encontrariam de novo - conversaram de tudo, da vida, dos amores, de objetivos. Ele falou da mãe, que ela ia gostar de conhecer. Ela falou de um lugar de águas quentes onde adoraria levá-lo. Ele contou que se arrependia de ter batido em um colega, numa festa. Ela contou que morria de medo de brigar, mas um tapa desferido uma vez a uma garota havia sido merecido. Riram e ela fez uma daquelas piadas de humor negro. Ele não entendeu, ela ficou sem graça, mas seguiram os dois únicos falantes daquele pedaço de terra.
Ela estremeceu - de frio ou ansiedade? nunca sabe, e isso ocorre em raras ocasiões desde seus 14 anos - quando ele se aproximou para pegar sua mão e apontar uma estrela. As estrelas eram infinitamente mais brilhantes e abundantes lá, e ela errou diversas vezes ao tentar mostrá-lo o Cruzeiro do Sul.
O estranho sugeriu, então, um mergulho. "Um mergulho? À noite?", escandalizou-se a comportada Maria. Ele foi tão natural que ela não teve escolha. Mergulharam.
Maria sempre tivera a sensação de que alguma criatura surgiria de qualquer água onde nadasse à noite. Mas naquele dia, não.
Fazia aquele frio estranho de setembro, que gela um pouco os dedos e o peito de Maria, e ela não queria molhar o cabelo, porque depois teria o trabalho de secar e poderia pegar uma gripe.
Ele não deu a mínima importância a isso e empurrou a moça de cima de uma das pedras que ficavam submersas quando a maré subia. Ela escandalizou-se uma vez, passando a mão nos cabelos já ensopados, e os dois riram.
Ele subiu novamente na pedra submersa, de onde a água passava do peito para a cintura. Ela subiu também e tiritou um pouco (ainda sem saber o quê realmente lhe fazia tiritar).
Ele parou a conversação e as risadas e os dois estavam frente a frente. Ela olhou para baixo, ficando de cara com o peito dele, sem saber o que fazer. Então surgiu nela uma vontade de saber qual era a textura de sua pele e, por isso, subiu as mãos e roçou, como se fosse sem querer, os braços do estrangeiro. Ele ficou parado e comentou algo sobre romantismo. Ela ficou subitamente tímida e confusa, e pulou novamente para a água.
*
Sentada no banco duro, ao lado de outros dois passageiros, com a cabeça encostada na parede de madeira, Maria percebia o barco se afastando da ilha. O sol esquentava a pequena embarcação e trazia sonolência. O balanço e o calor entorpeciam-na. O rapaz estava em pé sobre a areia e acenava, ficando cada vez menor e menor e menor. Ela dormiu pouco tempo depois e sonhou que lhe entregava a concha alaranjada.
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6 comentários:
Glogló.... entrei para ver, mas acabei por ler. Achei massa, como sempre. Bjocas, marina beatrina.
acho que essa história é um pouco verdadeira
Oi, Glória! Aqui é a Lígia, amiga da Sabrina (antiga POEMIA), tá lembrada de mim? Agora sou POIZENTÃO, mudei de nome! Meu blog também mudou um pouco... parece mais um merchandising cinematográfico com pretensões a portfolio do que um diário, hehehe... mas pretendo retomar seu caráter proso-poético em breve... Entrei no seu blog e percebi que estava com saudade de ler suas coisas! Engraçado, a gente não é amiiiiga amiga, mas eu sinto como se [quase] fôssemos. Gosto muito dos seus textos, é bom ver que você continua escrevendo [p.s.: não estou bêbada... hehehe!]. Agora sou jornalista formada, mas, engraçado, acho que nada mudou! Passa no meu blog depois! Grande beijo, Lígia.
"Precisava tirar férias. Férias das férias. Já estava sem trabalhar havia dois meses e aquilo a exasperava. Acordava ao meio-dia e passava seis horas seguidas na internet. Leu todos os livros que ainda não tinha lido e resolveu que viajar seria bom."
Minha nossa, será mera coincidência?? Estou me sentido EXATAMENTE ASSIM!!
Eu sou uma tonga mesmo, já ia fazer mais um comentário do mesmo texto...
queria ser aquela conchinha!
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