Gato, janela, incenso
Parede, retrato, estante
Aqui sou imperatriz, neste espaço único que você teve licença para invadir.
Almofada, lustre, quadro
Tudo é branco, preto ou vermelho.
E são só duas taças para as duas bocas gêmeas.
Seu corpo apreciou minha cama
Grande e soberana no quarto onde vivo - quando você não está.
Perfume, vela, vaso
Tapete, planta, pó
O pão e o leite, o sono e o beijo.
Você entra quando quer.
O armário e o gato, a manhã e a cama.
Quando amanhece, adeus, olhos do Oriente
(Desde aqui dentro deste meu micro-universo onde você não mais habita
Além do espelho).
10.7.07
1.7.07
A fonte porteña
Uma viagem sozinha; outra viagem sozinha, daquelas que fazem a cabeça borbulhar no avião/ônibus/barco de volta pra casa.
Como jornalista curiosa e apaixonada, impossível se desligar das notícias e da possibilidade de farejar algo a respeito de que se pode escrever. Mas naqueles dias, eu experimentava a sensação de isolar-me do mundo se quisesse, entre imensas avenidas de passantes desconhecidos e livrarias absurdas. Podia escolher, silenciosamente, se queria entrar numa loja de souvenires ou numa cafeteria decadente, se pararia para tirar uma foto ou me sentaria em uma praça ensolarada, onde ninguém me encontraria, a não ser que eu quisesse. E eu não andava querendo muito.
Mas o telefone chamou, chamou, nesse momento em que eu começava a imaginar como era a vida sem ele. O telefone chamou com insistência, e uma voz desconhecida disse “hola”, oferecendo um possível tema de artigo ou reportagem. Difícil dizer não, o dever sempre chama, afinal. Preguiçosamente, anotei um endereço e fui. Meu interlocutor havia dito que eu não teria dificuldades em identificá-lo – já que éramos desconhecidos – , por causa de sua “moto extravagante”. De fato. Em uma avenida de movimento considerável, vi de longe o belo triciclo old style que chamava a atenção.
“Mucho gusto, Antonio”, me disse, antes de convidar-me a subir na garupa, eu já com um capacete na cabeça, comentando sobre como o dia andava belo apesar do vento frio. Antonio dirigia rápido e aproveitávamos quando o semáforo ficava vermelho para conversar sobre a cidade. Era emocionante quando o vento gelado encontrava brechas no meu casaco bege e se fazia entrar em contato com a minha pele.
Antonio, nativo porteño, também jornalista, me levaria a uma feira que, segundo ele, seria verdadeiramente típica, ao contrário dos pontos turísticos que eu já havia decorado na metrópole. Ao nos afastarmos do centro de Buenos Aires, a paisagem se tornava diferente, e o sol de quase meio-dia iluminava ruas de paralelepípedos que me faziam dar pequenos pulos na garupa da moto. Os grandes prédios davam lugar a armazéns antigos e casinhas de parede descascada, que outrora haviam abrigado frigoríficos sangrentos e não muito limpos.
No caminho para a “Feria de Mataderos”, nosso destino, Antonio me contava sobre como saiu da Patagônia para a capital, e sobre os vários empregos que teve, desde radialista a servidor público na área cultural – de tudo um pouco sobre uma experiência incomum e vasta.
Ao chegarmos, a cultura dos povos das Províncias pululava em todas as tendas, e os couros, cheiros, pedras, peças de barro e cobertores de llama compunham um quadro alegre de interior. Um grupo tocava bailes tradicionais para os poucos casais que se aventuravam a arriscar passos “gauchos”, e a atmosfera era acolhedora.
Antonio conhecia a todos e não parava de acenar. Perguntei a ele como isso era possível. Ele respondeu, com naturalidade, que participava de um programa de TV local. “Ah, uma celebridade”, pensei.
A história da minha fonte era realmente boa e eu me arrependi de ter pensado que talvez fosse melhor dar uma volta pelo museu de Belas Artes naquele dia. Ele tinha tanto a dizer, e eu amaldiçoei não ter levado meu gravador. Pedi licença e comecei a anotar desesperadamente – ele falava rápido e tudo era interessante – , misturando português e espanhol, num pequeno caderno que carregava para todos os lados. Tantas siglas escritas correndo que até hoje não consegui decifrar, a propósito.
Passamos o dia juntos, eu e aquele desconhecido falante que às vezes corrigia conjugações verbais do meu castellano. Numa cafeteria ao fim do dia – porteños precisam coroar as coisas com café – , Antonio quase chorou ao descrever suas filhas, e como uma delas havia dito que “o amava como uma tormenta”. O jornalista-motoqueiro também começou a rabiscar um mapa, em meu bloco, da viagem que queria fazer de moto pelas Cordilheiras dos Andes. E convidou-me a subir em sua garupa para essa loucura.
E o mais estranho foi que naquele exato momento, naqueles talvez 15 minutos que passamos ali, cogitei aceitar. Largar tudo, botar uma câmera debaixo do braço, e partir em jornada com um total desconhecido. Coisa de filme mesmo. E Antonio falava sem parar da vida, com paixão, e das pessoas, com esperança, e das suas filhas, com ternura. E eu me sentia como uma planta que anseia por ser regada, sedenta por suas palavras lindas e insanas, que me fizeram questionar para sempre uma porção de pilares certinhos que eu tinha dentro de mim. Antonio me perguntava quem era eu, o que eu fazia lá, o que eu queria. E eu gaguejava. Saberia responder?
*
Deixou-me em casa após passarmos por uma rodovia já no fim da tarde, a 90 km/h que faziam o vento se tornar cortante em cima da moto. Nunca mais o vi. Às vezes, envia o material jornalístico prometido. Dois dias depois, deixei a Argentina pensando e rindo sozinha, que aquele homem jamais vai me levar para a Cordilheira em seu veículo old style. Mas - que bom que o havia conhecido.
Como jornalista curiosa e apaixonada, impossível se desligar das notícias e da possibilidade de farejar algo a respeito de que se pode escrever. Mas naqueles dias, eu experimentava a sensação de isolar-me do mundo se quisesse, entre imensas avenidas de passantes desconhecidos e livrarias absurdas. Podia escolher, silenciosamente, se queria entrar numa loja de souvenires ou numa cafeteria decadente, se pararia para tirar uma foto ou me sentaria em uma praça ensolarada, onde ninguém me encontraria, a não ser que eu quisesse. E eu não andava querendo muito.
Mas o telefone chamou, chamou, nesse momento em que eu começava a imaginar como era a vida sem ele. O telefone chamou com insistência, e uma voz desconhecida disse “hola”, oferecendo um possível tema de artigo ou reportagem. Difícil dizer não, o dever sempre chama, afinal. Preguiçosamente, anotei um endereço e fui. Meu interlocutor havia dito que eu não teria dificuldades em identificá-lo – já que éramos desconhecidos – , por causa de sua “moto extravagante”. De fato. Em uma avenida de movimento considerável, vi de longe o belo triciclo old style que chamava a atenção.
“Mucho gusto, Antonio”, me disse, antes de convidar-me a subir na garupa, eu já com um capacete na cabeça, comentando sobre como o dia andava belo apesar do vento frio. Antonio dirigia rápido e aproveitávamos quando o semáforo ficava vermelho para conversar sobre a cidade. Era emocionante quando o vento gelado encontrava brechas no meu casaco bege e se fazia entrar em contato com a minha pele.
Antonio, nativo porteño, também jornalista, me levaria a uma feira que, segundo ele, seria verdadeiramente típica, ao contrário dos pontos turísticos que eu já havia decorado na metrópole. Ao nos afastarmos do centro de Buenos Aires, a paisagem se tornava diferente, e o sol de quase meio-dia iluminava ruas de paralelepípedos que me faziam dar pequenos pulos na garupa da moto. Os grandes prédios davam lugar a armazéns antigos e casinhas de parede descascada, que outrora haviam abrigado frigoríficos sangrentos e não muito limpos.
No caminho para a “Feria de Mataderos”, nosso destino, Antonio me contava sobre como saiu da Patagônia para a capital, e sobre os vários empregos que teve, desde radialista a servidor público na área cultural – de tudo um pouco sobre uma experiência incomum e vasta.
Ao chegarmos, a cultura dos povos das Províncias pululava em todas as tendas, e os couros, cheiros, pedras, peças de barro e cobertores de llama compunham um quadro alegre de interior. Um grupo tocava bailes tradicionais para os poucos casais que se aventuravam a arriscar passos “gauchos”, e a atmosfera era acolhedora.
Antonio conhecia a todos e não parava de acenar. Perguntei a ele como isso era possível. Ele respondeu, com naturalidade, que participava de um programa de TV local. “Ah, uma celebridade”, pensei.
A história da minha fonte era realmente boa e eu me arrependi de ter pensado que talvez fosse melhor dar uma volta pelo museu de Belas Artes naquele dia. Ele tinha tanto a dizer, e eu amaldiçoei não ter levado meu gravador. Pedi licença e comecei a anotar desesperadamente – ele falava rápido e tudo era interessante – , misturando português e espanhol, num pequeno caderno que carregava para todos os lados. Tantas siglas escritas correndo que até hoje não consegui decifrar, a propósito.
Passamos o dia juntos, eu e aquele desconhecido falante que às vezes corrigia conjugações verbais do meu castellano. Numa cafeteria ao fim do dia – porteños precisam coroar as coisas com café – , Antonio quase chorou ao descrever suas filhas, e como uma delas havia dito que “o amava como uma tormenta”. O jornalista-motoqueiro também começou a rabiscar um mapa, em meu bloco, da viagem que queria fazer de moto pelas Cordilheiras dos Andes. E convidou-me a subir em sua garupa para essa loucura.
E o mais estranho foi que naquele exato momento, naqueles talvez 15 minutos que passamos ali, cogitei aceitar. Largar tudo, botar uma câmera debaixo do braço, e partir em jornada com um total desconhecido. Coisa de filme mesmo. E Antonio falava sem parar da vida, com paixão, e das pessoas, com esperança, e das suas filhas, com ternura. E eu me sentia como uma planta que anseia por ser regada, sedenta por suas palavras lindas e insanas, que me fizeram questionar para sempre uma porção de pilares certinhos que eu tinha dentro de mim. Antonio me perguntava quem era eu, o que eu fazia lá, o que eu queria. E eu gaguejava. Saberia responder?
*
Deixou-me em casa após passarmos por uma rodovia já no fim da tarde, a 90 km/h que faziam o vento se tornar cortante em cima da moto. Nunca mais o vi. Às vezes, envia o material jornalístico prometido. Dois dias depois, deixei a Argentina pensando e rindo sozinha, que aquele homem jamais vai me levar para a Cordilheira em seu veículo old style. Mas - que bom que o havia conhecido.
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