Creio que o encontro com as nossas próprias raízes pode acontecer das maneiras mais inimagináveis — e mais de muitas vezes na vida. Raízes, a meu ver, podem transcender terras, pessoas e línguas, e ser encontradas em recantos (físicos ou não) inusitados. E esse encontro é sempre algo no mínimo místico e confortador: uma sensação de pertencimento ou "já estive aqui". Ou: se me perder no mundo, há terras que são minhas.
O Rio nunca foi meu, apesar de já ter ido ao Rio mais de cem vezes. O Rio é dos meus pais, de todos os sangues também gaúchos, mineiros e estrangeiros que correm em mim, e dos cariocas de fala chiada. Então escrevo sobre o Rio e suas discrepâncias com freqüência, e ele continua onde sempre esteve, abrigando uma das sete maravilhas do mundo, lotado de turistas deslumbrados, me fazendo lembrar de viagens cansativas e medo de ser assaltada.
Nos últimos dias, no entanto, a floresta da Tijuca de meu pai, o colégio Sion de minha mãe e a sétima maravilha abriram-me os braços de forma distinta. E se transformaram em novas raízes. Foi uma questão de parar e olhar — uma mirada um pouco mais atenciosa, talvez, misturada a uma ansiedade de simplesmente só ver e reconhecer os sítios por onde passam algumas memórias que não são minhas.
Do morro da Urca dá pra ver a Marina da Glória e — ainda não sei me localizar precisamente na capital fluminense — acho que um pedaço da igreja onde eles se casaram. Outeiro da Glória. É isso? (Tantos são os pontos de "melhor observação" do Rio que não dá para saber, a não ser que se more lá). O Outeiro, de qualquer forma ou seja qual for o ângulo, parece se erguer quase acima da atmosfera quente de maresia daquela cidade, insistindo em me fazer lembrar que ali uma vez o amor foi celebrado. Ao menos uma vez, que eu saiba, evocando as imagens em preto e branco guardadas no meu armário belo-horizontino.
E todos os recantos históricos — sentar-se à mesa de JK na Colombo, circular pelos imponentes corredores do Palácio Tiradentes — não deixam que caia no olvido o passado ilustre de capital federal da cidade. Memórias coletivas, no caso, também minhas, brasileira que sou. E imagino jovens os meus pais cariocas passando por ali sem dar a mínima para o belo cenário, para o número exato de espécimes do Jardim Botânico, para as pedras que foram trazidas de Portugal para o mosteiro de São Bento — entretidos que estavam com os namoricos e as sorveterias.
11.12.07
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